26 de novembro de 2016

Jésus, le dieu fait homme, de Pierre-Louis Couchoud

A criação do Cristo – Um esboço dos começos do Cristianismo, de Pierre-Louis Couchoud, de 1937, é um clássico entre os miticistas, ou seja os que defendem que Jesus não foi um personagem histórico, mas uma divindade para a qual foi criada uma história entre os homens. A sua tradução inglesa foi finalmente disponibilizada por Frank Zindler, diretor do American Atheist Magazine e posta online, Volume 1 (PDF, 1,2 Mb, 229 págs.) e Volume 2 (PDF, 1,7  Mb, 241 págs., por René Salm, no seu blogue Mythicist Papers, e também em versão comentada por por Neil Goffrey, no blogue Vridar.

Eu preferia ler a edição original francesa, mas já estou muito contente por poder ler este livro. Dado tratar-se de uma obra de 1937, é possível que alguns aspetos estejam desatualizados face à pesquisa contemporânea. Depois de ler o livro, vou sem dúvida consultar os comentários de Neil Geoffrey, pois este blogger australiano é uma das melhores fontes eruditas e cientificamente honestas neste campo, e ao mesmo tempo o mais disposto a divulgar as mais diversas avenidas de pesquisa que estão em curso – e nos últimos anos têm sido muitíssimas.

15 de outubro de 2016

10 segredos sobre a pesca ao clique (click-bait) - o terceiro vai deixar-te espantado!

A pesca ao clique ou iscar ao clique (click-baiting) é uma atividade muito vulgar na Net, mas poucos sabem do que se trata. Dito de outro modo, poucos são os pescadores, mas quase todos já viemos à rede, conscientemente ou não. Sendo assim, resolvi escrever este texto com a estrutura e a linguagem típicas de um artigo de click-baiting.

A estrutura em pontos é típica, bem como o exagero dos títulos. É dessa forma que vou escrever.

29 de setembro de 2016

O verdadeiro Jesus que se levante, por favor...

Não tenho quaisquer problemas com o facto de Jesus ter tido existência histórica ou não. Os meus problemas com Jesus foram resolvidos aos 15-16 anos, quando me tornei ateu. O chamado Jesus da fé, o filho de uma virgem e de Deus que fez milagres, foi crucificado e ressuscitou – não é de todo real. É uma fantasia religiosa.
As únicas hipóteses viáveis, face à inexistência de vestígios históricos, são 1) Jesus ter sido um curandeiro ou profeta quase completamente desconhecido sobre o qual se construiu todo este fantástico edifício mítico que é o cristianismo; ou então 2) trata-se de um personagem divino tão imaginário como outro deus qualquer, ao qual se inventou, a dado momento, uma vinda à terra salvadora.

Mas o puzzle de investigação histórica sobre jesus é um caso que há anos me interessa muito. Investigadores históricos têm vindo a morder nas sacrossantas escrituras (não confundir com os adeptos de teorias loucas, que também os há), uma dentadinha de cada vez, desde há séculos . Isso é verdade para o Novo Testamento, mas também para a Bíblia judaica. Hoje sabe-se que Abraão e Moisés eram personagens lendários, que o famoso Êxodo do Egito nunca aconteceu e mesmo o esplendor de Salomão está sob grave ameaça do ceticismo, pois caso tenha existido foi certamente um obscuro reino tribal1. A história de Maomé e da escrita do Corão começou muito mais tarde a ser investigada, mas não perde pela demora. Recentemente, foi descoberto um exemplar do Corão que o carbono 14 diz ser anterior a Maomé… Estranho.

David Fitzgerald é formado em História e um dos grandes divulgadores da teoria de Jesus mito, meu amigo no Facebook há anos, e sigo a sua atividade com muito interesse. Traduzi este artigo, publicado no blogue "What Would JT Do", de JT Eberhard, porque é um resumo muito bom do estado da teoria do Jesus Mito neste momento.

28 de abril de 2016

Mentirias aos teus filhos?


"Mentirias deliberadamente aos teus filhos?"pergunta o rabi Adam Chalom, doutorado em Humanismo Hebraico pela Universidade de Yale, EUA. – "Dirias que foi isto que aconteceu quando sabes que não foi isto o que aconteceu? Há uma questão ética aqui".

O rabi Chalom refere-se à crença popular de que a a narrativa da Bíblia judaica corresponde a eventos históricos. De facto, é sabido entre os arqueólogos bíblicos há quase três gerações que os Cinco Livros de Moisés (a Torah) e a História Deuteronomística dos Nevi'im (incluindo os livros de Josué, Juízes e Samuel) correspondem tanto a uma descrição da história antiga do povo judeu como como O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien, é uma descrição literal da Primeira Guerra Mundial.

16 de abril de 2016

Politicamente correto

O Bloco de Esquerda parece tar dado um faux pas ao propor um nome sem indicação de género para o Cartão de Cidadão. Não porque a proposta seja incorreta, na minha opinião, mas porque é muito à frente para a maioria.

As lutas políticas à volta da gramática tiveram um curso muito limitado ainda no nosso país, mas é inevitável que cá cheguem. Entre os falantes de inglês já duram há muitos anos e não mostram sinais de abrandar.

A língua que falamos exprime naturalmente as relações de poder das sociedades que a criaram. O facto do masculino ser o género padrão, usado por defeito, exprime o passado e o presente patriarcal das nossas sociedades. Não é uma caraterística só da língua portuguesa, mas foi herdada há muitos séculos das línguas suas antecessoras.

Abundam nas redes as demonstrações de indignação contra o politicamente correto. Muitos sentem-se ameaçados no conforto dos seus hábitos mentais, até quiçá das suas identidades, pelas propostas de inovação linguística, irritantes e estultas.

Se formos olhar para a história da nossa língua (e nisto eu sou um perfeito amador, sem formação superior no assunto) encontramos fascinantes evoluções precisamente nos pontos relacionados com a expressão do poder. Havia, na Idade Média e pelo menos até às revoluções liberais, uma forma de tratar os poderosos na terceira pessoa plural ("Vós sois...") e outra forma sem cerimónia, para os poderosos se dirigiram aos da ralé ou para a ralé se tratar entre si ("Tu és").

Com a democratização progressiva da sociedade o uso da segunda pessoa plural caiu em desuso e surgiu uma forma intermédia, o uso da terceira pessoa singular, correspondente ao respeitável burguês ("Você é"), mantendo-se o tu para as formas não respeitosas de diálogo. Imagino que alguns dos literatos conservadores tenham protestado, indignados com a inovação e clamando contra a falta de respeito que se instalava.

Do mesmo modo, o uso de patronímicos pejorativos (mouros, ciganos, pretos) caiu em desuso ou foi censurado, à medida que a sociedade se tornava um pouco mais aberta e inclusiva.

É caraterístico de quem está numa posição privilegiada não sentir a opressão. Assim, sempre que alguma destas inovações teve lugar, houve quem protestasse, alegasse tratar-se de um preciosismo sem interesse, mas sempre incomodado com o esforço de cuidar da forma de tratar os outros. Assim, um branco não se sentia em geral ofendido por falar em mouros, ciganos e pretos. Quanto às pessoas referidas dessas formas desrespeitosas, já é uma outra questão.

Muitos dos conceitos usados nestas discussões correm em paralelo entre feministas e anti-racistas.

Quanto ao género, há já alguns anos que quem defende a igualdade de direitos da mulher levanta estes problemas linguísticos, sobretudo entre os falantes de língua inglesa. Entre as mentes mais progressivas, tornou-se hábito, por exemplo, referir uma pessoa indeterminada como she em vez de he, usar o pronome hesh em vez de he ou she, ou mesmo o plural they como singular de género indeterminado. Isto porque entretanto a questão complicou-se com uma discussão inclusiva dos géneros não binários ou fluidos.

A discussão será mais acesa entre nós, porque nas línguas descendentes do latim vulgar, como o português, nem sequer há o género neutro nas palavras. Tudo é completamente binário.

Sendo eu parte do grupo privilegiado, sinto que não me compete opinar de forma paternalista sobre o que é ou não ofensa para os grupos oprimidos. Neste caso do género por defeito, é claro que, à partida, me sinto confortável por esse género padrão ser o meu. Cabe-me sim, como possuidor de uma consciência progressiva, ouvir com atenção e considerar com respeito o que as mulheres têm a dizer sobre o assunto.

Se mudar a gramática for condição necessária para haver mais respeito e mais justiça, pois que se mude a gramática!

17 de janeiro de 2016

But for the oppressed people of the rest of the world they show the middle finger

I made a rather long comment on a guest post in Ophelia Benson's site Butterflies & Wheels, titled "If you say 'I am not Charlie', you are not a liberal". Then, Ophelia published my comment as a guest post of it's own. I'm sharing it with you.

15 de janeiro de 2016

Debate

Um amigo do Facebook, Jorge Silva Paulo, cujas simpatias pendem para o lado das políticas do governo anterior, convidou-me, entre outros, a comentar um poste em que zurzia no governo de António Costa. Na minha resposta entusiasmei-me e escrevi um texto bastante longo. Publico aqui a intervenção inicial desse amigo, com a devida autorização da sua parte, bem como uma resposta sua e uma tresposta minha. Omiti, naturalmente, as intervenções de terceiros que não são meus amigos no Facebook.

1 de dezembro de 2015

Penso, logo sou previsível... 1. Introdução

Tenho andado a ler textos que me colocaram alguns problemas. Li um livro muito interessante sobre o fascismo — The Anatomy of Fascism de Robert O. Paxton (o linque é para descarregar um PDF gratuito) que, entre muita outra informação fundamental, discutia o problema da radicalização. Pessoas pacíficas e pacatas abraçam uma ideologia extremista e paulatinamente começam a praticar atos cada vez mais antissociais e mais criminosos. Como é isso possível?

21 de novembro de 2015

De barriga cheia

Barriga. Assunto complicado. Fala-se muito dela, mas de forma francamente opressiva. Os agentes que querem ganhar dinheiro a vender dietas ou exercícios, ou mesmo curas milagrosas, referem-se à barriga em termos muito depreciativos. Compreende-se, porque é no envergonhar do utente da barriga que reside o seu possível ganha-pão.

Há também os privilegiados com corpos esbeltos, que mencionam com desprezo os seres inferiores que carregam nos seus corpos o estigma. Como a maioria das elites, a pertença ao privilégio raramente resulta de algum mérito. É sorte, os genes certos ou simplesmente juventude.

28 de agosto de 2015

Onde é que eu nasci?

Para todos os efeitos legais e prosaicos, eu estou certo de que nasci há 62 anos, dois meses e 16 dias, ou mais precisamente há 22.693 dias, em Faro, na Rua de São Brás do Alportel, Freguesia de São Pedro. Não é disso que eu tenho dúvidas, naturalmente.

Nas aventuras de ficção científica que incluem viagens no tempo, como a série de filmes Regresso ao Futuro ou o clássico da literatura A Máquina do Tempo, de H.G. Wells, presume-se ingenuamente que os viajantes se deslocam para uma data futura ou passada, mas ficam no mesmo ponto da Terra de onde partiram. Isso é conveniente para o enredo das aventuras, mas ingénuo, porque sabemos que o nosso planeta se desloca pelo espaço a uma velocidade vertiginosa. Mesmo que fosse possível mudar magicamente a variável da quarta dimensão, uma viagem no tempo implicaria sempre uma translação gigantesca no espaço.