3 de setembro de 2017

Qual é o Objetivo Final da Extrema-Direita? Uma Sociedade que Suprima a Maioria

É importante perceber as ideias neoliberais que hoje se tornaram uma espécie de lugares-comuns, debitados sem pensar por toda a espécie de comentadores. Na sua origem estão três pensadores do princípio do século XX, Frederich Hayeck, Ludwich Von Mises e James McGill Buchanan. A corrente coalesceu a seguir ao fim da Segunda Guerra Mundial, quando a doutrina dominante era a intervenção do estado na ecomomia, de acordo com as ideias de John Maynard Keynes. Estes pensadores defendiam a liberdade total dos mercados e a não intervenção do Estado. Opunham-se ao comunismo, o que não era original, mas opunham-se ao Plano Marshall na Europa, o que na altura fazia deles párias minoritários. Como é mencionado nesta entrevista, juntou-se-lhes o multimilionário Charles Koch, que montou uma complexa rede de fundações, think tanks e redes de influenciadores de eleições.

Os resultados dessa máquina de propaganda multinível começaram a resultar com a conquista de uma parte do pensamento universitário dos EUA e os prémios Nobel para Milton Friedman e Buchanan. Depois de ter auxiliado Pinochet no seu plano económico, Friedman tornou-se uma personalidade mediática com uma série televisiva onde divulgava as suas ideias.

Hoje a cartilha neoliberal domina o Partido Republicano dos EUA, nos seus diversos sabores, mais liberal ou mais autoritário, grande parte do Partido Democrata, os partidos do chamado centro na Europa e também grande parte dos socialistas "moderados" ou trabalhistas, o que se chamou a Terceira Via, de Tony Blair a Sócrates, de Caballero a Hollande. Felizmente, hoje os rasgões na manta neoliberal são cada vez maiores, como todos sabemos. Bernie Sanders, António Costa, o nosso Bloco, o Podemos, durante um tempo o Siriza, Mélenchon, Corbyn, vamos a ver.

23 de março de 2017

Entrevista a David Fitzgerald

Na edição em português de Nailed: Dez Mitos Cristãos que Mostram que Jesus Nunca Sequer Existiu

David Fitzgerald é um autor irlandês-americano, um investigador histórico e um ativista ateu de São Francisco, Califórnia. Foi diretor e co-fundador do primeiro Festival de Cinema Ateu do mundo e Evolutionpalooza!, a celebração mais antiga do Dia de Darwin de São Francisco. Escreveu vários livros de esclarecimento e entretenimento sobre a religião a partir de uma perspetiva ateia, incluindo a série The Complete Heretic's Guide to Western Religion e Nailed, o seu exame da evidência histórica para Cristo - que acaba de ser lançado em português.

Em primeiro lugar, parabéns pela nova tradução portuguesa do seu livro Nailed: Dez Mitos Cristãos que Mostram que Jesus Nunca Sequer Existiu. É uma boa notícia para os muitos leitores da língua portuguesa. Tenho a certeza de que a ideia de que Jesus da Galileia não foi um personagem histórico, mas um mito religioso surpreenderá a maior parte do público, ainda mais entre os falantes lusófonos, uma vez que se baseia principalmente no trabalho de estudiosos nos EUA. Para os religiosos, a ideia de que Jesus não foi uma pessoa real é naturalmente chocante, mas mesmo ateus e agnósticos, educados dentro de uma cultura cristã, resistem muito a considerar a possibilidade. Como é que começou a encarar essa ideia?

6 de março de 2017

Alt-right - o fascismo que renasce

Uma das caraterísticas fundamentais do fascismo é a criação de bandos violentos que atacam as organizações de esquerda. O nazismo tem esta caraterística, o fascismo italiano também. Uma das razões porque alguns historiadores recusam a classificação de fascismo ao regime de Salazar é que faltam esses bandos.

No caso do regime trumpiano também não há bandos de camisas coloridas, pelo menos de forma generalizada.

Mas há um fenómeno curioso, que é a existência de bandos de arruaceiros online, hoje conotados com a alt-right, sinónimo dos simpatizantes modernos do nazismo e da supremacia branca.

Desde há uns cinco anos, figuras proeminentes do feminismo começaram a ser vítimas de ataques coordenados de grande número de homens sexistas, os quais, através de ameaças, calúnias grosseiras e insultos tentavam expulsá-las dos vários fóruns da Web. Começou com uma ativista ateia e feminista, Rebecca Watson, que contou numa reunião uma abordagem inquietante por um homem, num elevador de um hotel de madrugada. Desencadearam-se ataques furiosos de literalmente milhares de trolls, com as acusações mais irreais, contra ela e contra quem a defendeu. Esse episódio ficou conhecido como o Elevatorgate (#ElevatorGate).

21 de fevereiro de 2017

Trump e a crise do Estado Profundo

Como o regime Trump foi fabricado por uma guerra dentro do Deep State
Uma crise sistémica no Sistema Profundo global levou à radicalização violenta de uma fação do Estado Profundo

Por Nafeez Ahmed

Relatório especial publicado pela INSURGE INTELLIGENCE, um projeto de jornalismo investigativo "crowdfunded" (financiado pelo público) para pessoas e para o planeta. Apoie-nos para continuar cavando onde outros temem ir.

11 de fevereiro de 2017

Agnosticismo ideológico

(Mas vale a pena lutar pelo que é justo!)

Uma das minhas características é meta-pensar, ou seja, pensar no que penso. Sempre que tive uma convicção política (tive e tenho), lá estava um observador cético dentro do meu espírito a perguntar se tal convicção era razoável, se era lúcida ou justa ou se estava simplesmente a pensar o mesmo que o resto do rebanho.

23 de dezembro de 2016

Já mataste alguém?

A questão era retórica e a resposta evidente: claro que não!

Mas...

Hoje, por acaso, estive em Lisboa a tratar de uns assuntos. Precisei de almoçar e entrei num snack-bar. Fui lavar as mãos. Quando abri a torneira, fiz com que lá longe, nem sei bem onde, uma estação de captação de água da rede de Lisboa sorvesse a pouca água que usei.

Sentei-me e pedi um bitoque de porco.

Eu não matei aquele porco. Já estava morto muito antes de eu decidir que ia almoçar ali. Mas matei o seguinte. A febra que comi ficou a faltar no frigorífico e não tarda nada telefonam para o talho a pedir mais. Esses telefonam para o matadouro e ditam a sentença de morte dos bichos seguintes. Essa foi a consequência da minha decisão económica.

Do mesmo modo, evidentemente, se passou com as batatas, o arroz, as alfaces, o pão e o vinho, até com o guardanapo. A minha ação influenciou os seus circuitos de distribuição e produção.

26 de novembro de 2016

Jésus, le dieu fait homme, de Pierre-Louis Couchoud

A criação do Cristo – Um esboço dos começos do Cristianismo, de Pierre-Louis Couchoud, de 1937, é um clássico entre os miticistas, ou seja os que defendem que Jesus não foi um personagem histórico, mas uma divindade para a qual foi criada uma história entre os homens. A sua tradução inglesa foi finalmente disponibilizada por Frank Zindler, diretor do American Atheist Magazine e posta online, Volume 1 (PDF, 1,2 Mb, 229 págs.) e Volume 2 (PDF, 1,7  Mb, 241 págs., por René Salm, no seu blogue Mythicist Papers, e também em versão comentada por por Neil Goffrey, no blogue Vridar.

Eu preferia ler a edição original francesa, mas já estou muito contente por poder ler este livro. Dado tratar-se de uma obra de 1937, é possível que alguns aspetos estejam desatualizados face à pesquisa contemporânea. Depois de ler o livro, vou sem dúvida consultar os comentários de Neil Geoffrey, pois este blogger australiano é uma das melhores fontes eruditas e cientificamente honestas neste campo, e ao mesmo tempo o mais disposto a divulgar as mais diversas avenidas de pesquisa que estão em curso – e nos últimos anos têm sido muitíssimas.

15 de outubro de 2016

10 segredos sobre a pesca ao clique (click-bait) - o terceiro vai deixar-te espantado!

A pesca ao clique ou iscar ao clique (click-baiting) é uma atividade muito vulgar na Net, mas poucos sabem do que se trata. Dito de outro modo, poucos são os pescadores, mas quase todos já viemos à rede, conscientemente ou não. Sendo assim, resolvi escrever este texto com a estrutura e a linguagem típicas de um artigo de click-baiting.

A estrutura em pontos é típica, bem como o exagero dos títulos. É dessa forma que vou escrever.

29 de setembro de 2016

O verdadeiro Jesus que se levante, por favor...

Não tenho quaisquer problemas com o facto de Jesus ter tido existência histórica ou não. Os meus problemas com Jesus foram resolvidos aos 15-16 anos, quando me tornei ateu. O chamado Jesus da fé, o filho de uma virgem e de Deus que fez milagres, foi crucificado e ressuscitou – não é de todo real. É uma fantasia religiosa.
As únicas hipóteses viáveis, face à inexistência de vestígios históricos, são 1) Jesus ter sido um curandeiro ou profeta quase completamente desconhecido sobre o qual se construiu todo este fantástico edifício mítico que é o cristianismo; ou então 2) trata-se de um personagem divino tão imaginário como outro deus qualquer, ao qual se inventou, a dado momento, uma vinda à terra salvadora.

Mas o puzzle de investigação histórica sobre Jesus é um caso que há anos me interessa muito. Investigadores históricos têm vindo a morder nas sacrossantas escrituras (não confundir com os adeptos de teorias loucas, que também os há), uma dentadinha de cada vez, desde há séculos. Isso é verdade para o Novo Testamento, mas também para a Bíblia judaica. Hoje sabe-se que Abraão e Moisés eram personagens lendários, que o famoso Êxodo do Egito nunca aconteceu e mesmo o esplendor de Salomão está sob grave ameaça do ceticismo, pois caso tenha existido foi certamente um obscuro reino tribal1. A história de Maomé e da escrita do Corão começou muito mais tarde a ser investigada, mas não perde pela demora. Recentemente, foi descoberto um exemplar do Corão que o carbono 14 diz ser anterior a Maomé… Estranho.

David Fitzgerald é formado em História e um dos grandes divulgadores da teoria de Jesus mito, meu amigo no Facebook há anos, e sigo a sua atividade com muito interesse. Traduzi este artigo, publicado no blogue "What Would JT Do", de JT Eberhard, porque é um resumo muito bom do estado da teoria do Jesus Mito neste momento.

28 de abril de 2016

Mentirias aos teus filhos?


"Mentirias deliberadamente aos teus filhos?"pergunta o rabi Adam Chalom, doutorado em Humanismo Hebraico pela Universidade de Yale, EUA. – "Dirias que foi isto que aconteceu quando sabes que não foi isto o que aconteceu? Há uma questão ética aqui".

O rabi Chalom refere-se à crença popular de que a a narrativa da Bíblia judaica corresponde a eventos históricos. De facto, é sabido entre os arqueólogos bíblicos há quase três gerações que os Cinco Livros de Moisés (a Torah) e a História Deuteronomística dos Nevi'im (incluindo os livros de Josué, Juízes e Samuel) correspondem tanto a uma descrição da história antiga do povo judeu como como O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien, é uma descrição literal da Primeira Guerra Mundial.