23 de abril de 2018

O Significado Gnóstico do Êxodo - R. Salm comenta H. Detering (3)

“O significado gnóstico do Êxodo e o começo do culto Josué / Jesus ”(2017)

Comentários de René Salm a um artigo de Hermann Detering (3)


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6 de abril de 2018

Código de cores: o material de Detering em castanho, os meu comentários em verde e pontos particularmente significativos (de qualquer um de nós) em vermelho.

Resumo do Dr. Detering de todo o artigo:

Numa interpretação gnóstica, o tema Êxodo tem fortes afinidades com conceções budistas-indianas. Uma investigação de onde e quando os sistemas de pensamento do Oriente e do Ocidente convergem – neste caso, escritura hebraica e tradição judaica de um lado, espiritualidade budista e indiana de outro – leva aos terapeutas, descritos por Fílon de Alexandria no seu De Vita Contemplativa. Os terapeutas eram, com toda a probabilidade, budistas judeus / judeus budistas. O seu mysterium central consistia numa celebração noturna do Êxodo, que consideravam uma passagem do reino material-sensual (= Egito) para o reino racional-espiritual (= o deserto / Terra Santa). Fortemente enraizados na tradição judaica, os terapeutas veneravam Moisés acima de tudo, enquanto grupos cristãos gnósticos intimamente relacionados, como os Peratas e os Naasenos, perpetuavam tradições centradas no sucessor de Moisés, Josué. Para estes últimos grupos, Josué / Jesus foi a contrapartida de Moisés. O antigo culto de Moisés foi substituído e superado pelo novo culto gnóstico-cristão de Josué-Jesus.

1a. A interpretação gnóstica do Êxodo: os terapeutas

[Detering escreve, p. 1] A saída do povo israelita do Egito, descrita no livro do Êxodo (13: 17-14: 31), é um tema repetido e central no Antigo Testamento (Deuteronómio 26: 5 seg., Salmos 114, Isaías 14:16, e muitos outros)... Dentro da ortodoxia israelita, o Êxodo foi visto como um evento explicitamente histórico. No entanto, uma interpretação alegórica apareceu pela primeira vez em Alexandria e bem fora da ortodoxia judaica. De acordo com Fílon, o filósofo religioso judeu do primeiro século CE, o Egito é "o corpo", o lugar das "paixões que excitam o corpo" e do vício. Da mesma forma, o Jordão é para Fílon um símbolo da tribulação. No que diz respeito à afirmação de Jacob: “porque com meu cajado passei este Jordão” (Gn 32:10), explica Fílon:

Jordão significa descida. E da natureza inferior, terrena e perecível, o vício e a paixão são partes componentes; e a mente do asceta passa sobre eles no curso da sua educação. Pois é uma noção demasiado baixa para explicar a sua fala literalmente; como se isso significasse que ele atravessou o rio, segurando o cajado na mão. [Sobre as leis II.89; Tradução Scholer.]

Por tudo isso, Fílon delineia apenas o contraste geral entre a esfera material sensual (= Egito / Jordão) e a esfera mental-espiritual (= deserto).

Comentário: Água, água em todo o lado... (R. Salm):

Vamos fazer um breve hiato das excitantes conexões budistas-cristãs sinalizadas no post 1 desta série, incluindo a dos primeiros nazoreanos cristãos a "incendiarem-se". O Dr. Detering envolve-se com o budismo no seu artigo, e havemos de voltar a essa questão crítica. Neste post, no entanto, inicio uma resposta sistemática ao artigo de Detering.

21 de abril de 2018

O Significado Gnóstico do Êxodo - R. Salm comenta H. Detering (2)

H. Detering, “O Significado Gnóstico do Êxodo” – Um comentário (Pt. 2)

René Salm (tradução de um post no seu blogue Mythicist Papers


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6 de abril de 2018

Código de cores: o material de Detering em castanho, os meu comentários em verde e pontos particularmente significativos (de qualquer um de nós) em vermelho.

Destaques deste post:

  • o Novo Testamento deve ser datado do segundo século EC
  • Epifânio de Salamina identifica os jesseus pré-cristãos com os terapeutas de Fílon, e os terapeutas com os primeiros cristãos
  • De acordo com Epifânio, alguns pré-cristãos judeus "incendiaram-se"
  • Epifânio mostra que os nazoreanos estavam de alguma forma relacionados com os monges indianos

O Significado Gnóstico do Êxodo - R. Salm comenta H. Detering (1)


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René Salm, um norte-americano criado em Beirute, pertence à corrente miticista, ou seja, os que defendem que não existe um Jesus histórico, mas a sua pesquisa tem duas originalidades: Durante anos, este autor dedicou-se a desmontar o mito de Nazaré. Tendo em conta que Nazaré não existia no suposto tempo de Jesus, ele desmascara a armadilha turística que é atualmente o suposto local do nascimento de Jesus. Insiste que o Nazareno não se refere a Nazaré, mas a uma seita preexistente, os nazoreanos.

No seguimento disto, ele faz uma investigação desta seita, identificando-lhe raízes protognósticas e de filosofia oriental. Identifica mesmo um possível fundador desta corrente religiosa, 80 anos antes da Era Comum, um fariseu de Jerusalém chamado Yeshu ha Nostri, que fugiu, devido a uma perseguição do rei asmoneu Alexandre Janeu, para Alexandria, onde contactou com enviados budistas vindos da Índia, leu livros da famosa biblioteca e entrou em divergência com a fé judaica. Morto o rei e finda a perseguição aos fariseus, voltou a Jerusalém, onde criou um culto considerado herético pelos sacerdotes do Templo e acabou assassinado. Mas este Yeshu nunca se arvorou em Deus ou em Filho do Homem, sendo considerado pelos seus adeptos apenas um profeta.

Este post é o primeiro de uma série, espero que longa, onde este autor analisa o trabalho de um pesquisador alemão, Hermann Detering, que concorre com alguns pontos da investigação de René Salm sobre as origens filosóficas orientais do cristianismo. Os meus posts são traduções das publicações de René Salm no seu blogue Mythicist Papers.

19 de abril de 2018

Riqueza traz felicidade? Até certo ponto...

A questão de saber se a riqueza traz felicidade ou não tem ocupado os filósofos e os moralistas há milénios. Vários ditos irónicos circulam, sendo o mais conhecido o de que o dinheiro não traz a felicidade mas ajuda muito. Os que prestam mais atenção ao desenvolvimento das qualidades morais tendem a desprezar o dinheiro ou até, como fazem os budistas, negar a noção de desejo. A felicidade seria o Nirvana, ou a morte do desejo.

A ciência tem o hábito de cortar nós górdios, substituindo palavreado por análise matemática e, neste caso, entrou na questão armada de um grande machado epistémico. Bom, a felicidade é subjetiva, mas a felicidade ou infelicidade de grandes números pode ser tratada como um dado objetivo. Porque é que não perguntamos às pessoas?

15 de abril de 2018

Ordem & caos

Não sou colecionador de moedas, mas tinha algumas numa caixa. Moedas de um e de dois euros, cinquenta, vinte, dez, cinco e um cêntimo, umas quantas de cinquenta e vinte escudos dos tempos antigos, marcos e francos também de antes do euro, umas poucas peças inglesas e norte-americanas. Também levas e leuas das minhas passagens pela Bulgária e pela Roménia. Cinquenta escudos de Cabo Verde e um par de kwanzas. Até uns rublos da velha URSS que alguém me deu.

Resolvi arrumar todas as moedas em pilhas por denominação e valor. Todos os euros ficaram numa pilha de euros, os marcos numa pilha de marcos, os cinquenta cêntimos de euro na sua pilha, por aí fora. Terminada a tarefa, arrumei a caixa na minha secretária.

22 de março de 2018

Juventude europeia abandona religião

Tradução e adaptação do artigo Report Finds Young People in Europe Are Abandoning Organized Religion in Droves no blogue Friendly Atheist, de Hemant Mehta.

Um relatório recente (PDF), realizado pelo professor de teologia Stephen Bullivant, da Universidade St. Mary em Londres, descobre que muitas nações europeias estão a marchar rapidamente para longe da religião.

Basta olhar para a percentagem de "Nenhuns" (ateus, agnósticos, pessoas que não pertencem a nenhuma religião organizada) no grupo etário dos 16 aos 29 anos.

Na República Checa, 91% das pessoas com menos de 30 anos não têm nenhuma afiliação religiosa. E num conjunto de 12 países a opção "nenhuma" é maioritária na mesma faixa etária.

3 de fevereiro de 2018

Um Conto de Duas Caixas, Éticas Sexuais em Contraste

Tradução do artigo "A Tale of Two Boxes, Contrasting Sexual Ethics", no blogue Love, Joy, Feminism, de Libby Anne. Trata-se de uma autora com muito público, do canal não religioso (ateu) do portal de discussões sobre religião Patheos. Educada numa família fundamentalista cristã, Libby Anne foca-se habitualmente no seu percurso de deconversão e discute problemas enfrentados por quem fez o mesmo caminho.

Have you ever killed anyone?

The question was rhetoric and the answer obvious: of course not!

But...

I happened to be in Lisbon today dealing with some business. I needed lunch and entered a snack bar. Before seating down, I went to the bathroom to wash my hands. When I turned on the faucet, I caused a water collection station — far away, I'm not sure where, in the Lisbon water network — to sip in the small quantity of water I used.

I sat down and ordered a pork steak.

I did not kill that pig. It was already dead long before I decided I was going to have lunch there. But I killed the next pig. The steak I ate is missing in the fridge and before long the snack bar manager will call the butcher to ask for more. The butcher will call the slaughterhouse and dictate the death sentence of the next beasts. That was the consequence of my economic decision.

29 de janeiro de 2018

Jesus cannot be the only Son of God

Even though we may never find our fellow sentient beings*, due to the enormous size of space-time and the brevity of our lives, these cultures certainly exist, existed, and will exist in the Universe. All those beings, don’t they need to be saved?

22 de janeiro de 2018

Jesus não pode ser o único Filho de Deus

Mesmo que provavelmente nunca encontremos* os nossos congéneres, devido ao tamanho descomunal do espaço-tempo e à brevidade das nossas vidas, essas culturas decerto existem, existiram e hão-de existir. Não precisam todos esses seres de ser salvos?