29 de setembro de 2016

O verdadeiro Jesus que se levante, por favor...

Não tenho quaisquer problemas com o facto de Jesus ter tido existência histórica ou não. Os meus problemas com Jesus foram resolvidos aos 15-16 anos, quando me tornei ateu. O chamado Jesus da fé, o filho de uma virgem e de Deus que fez milagres, foi crucificado e ressuscitou – não é de todo real. É uma fantasia religiosa.
As únicas hipóteses viáveis, face à inexistência de vestígios históricos, são 1) Jesus ter sido um curandeiro ou profeta quase completamente desconhecido sobre o qual se construiu todo este fantástico edifício mítico que é o cristianismo; ou então 2) trata-se de um personagem divino tão imaginário como outro deus qualquer, ao qual se inventou, a dado momento, uma vinda à terra salvadora.

Mas o puzzle de investigação histórica sobre jesus é um caso que há anos me interessa muito. Investigadores históricos têm vindo a morder nas sacrossantas escrituras (não confundir com os adeptos de teorias loucas, que também os há), uma dentadinha de cada vez, desde há séculos . Isso é verdade para o Novo Testamento, mas também para a Bíblia judaica. Hoje sabe-se que Abraão e Moisés eram personagens lendários, que o famoso Êxodo do Egito nunca aconteceu e mesmo o esplendor de Salomão está sob grave ameaça do ceticismo, pois caso tenha existido foi certamente um obscuro reino tribal1. A história de Maomé e da escrita do Corão começou muito mais tarde a ser investigada, mas não perde pela demora. Recentemente, foi descoberto um exemplar do Corão que o carbono 14 diz ser anterior a Maomé… Estranho.

David Fitzgerald é formado em História e um dos grandes divulgadores da teoria de Jesus mito, meu amigo no Facebook há anos, e sigo a sua atividade com muito interesse. Traduzi este artigo, publicado no blogue "What Would JT Do", de JT Eberhard, porque é um resumo muito bom do estado da teoria do Jesus Mito neste momento.

28 de abril de 2016

Mentirias aos teus filhos?


"Mentirias deliberadamente aos teus filhos?"pergunta o rabi Adam Chalom, doutorado em Humanismo Hebraico pela Universidade de Yale, EUA. – "Dirias que foi isto que aconteceu quando sabes que não foi isto o que aconteceu? Há uma questão ética aqui".

O rabi Chalom refere-se à crença popular de que a a narrativa da Bíblia judaica corresponde a eventos históricos. De facto, é sabido entre os arqueólogos bíblicos há quase três gerações que os Cinco Livros de Moisés (a Torah) e a História Deuteronomística dos Nevi'im (incluindo os livros de Josué, Juízes e Samuel) correspondem tanto a uma descrição da história antiga do povo judeu como como O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien, é uma descrição literal da Primeira Guerra Mundial.

16 de abril de 2016

Politicamente correto

O Bloco de Esquerda parece tar dado um faux pas ao propor um nome sem indicação de género para o Cartão de Cidadão. Não porque a proposta seja incorreta, na minha opinião, mas porque é muito à frente para a maioria.

As lutas políticas à volta da gramática tiveram um curso muito limitado ainda no nosso país, mas é inevitável que cá cheguem. Entre os falantes de inglês já duram há muitos anos e não mostram sinais de abrandar.

A língua que falamos exprime naturalmente as relações de poder das sociedades que a criaram. O facto do masculino ser o género padrão, usado por defeito, exprime o passado e o presente patriarcal das nossas sociedades. Não é uma caraterística só da língua portuguesa, mas foi herdada há muitos séculos das línguas suas antecessoras.

Abundam nas redes as demonstrações de indignação contra o politicamente correto. Muitos sentem-se ameaçados no conforto dos seus hábitos mentais, até quiçá das suas identidades, pelas propostas de inovação linguística, irritantes e estultas.

Se formos olhar para a história da nossa língua (e nisto eu sou um perfeito amador, sem formação superior no assunto) encontramos fascinantes evoluções precisamente nos pontos relacionados com a expressão do poder. Havia, na Idade Média e pelo menos até às revoluções liberais, uma forma de tratar os poderosos na terceira pessoa plural ("Vós sois...") e outra forma sem cerimónia, para os poderosos se dirigiram aos da ralé ou para a ralé se tratar entre si ("Tu és").

Com a democratização progressiva da sociedade o uso da segunda pessoa plural caiu em desuso e surgiu uma forma intermédia, o uso da terceira pessoa singular, correspondente ao respeitável burguês ("Você é"), mantendo-se o tu para as formas não respeitosas de diálogo. Imagino que alguns dos literatos conservadores tenham protestado, indignados com a inovação e clamando contra a falta de respeito que se instalava.

Do mesmo modo, o uso de patronímicos pejorativos (mouros, ciganos, pretos) caiu em desuso ou foi censurado, à medida que a sociedade se tornava um pouco mais aberta e inclusiva.

É caraterístico de quem está numa posição privilegiada não sentir a opressão. Assim, sempre que alguma destas inovações teve lugar, houve quem protestasse, alegasse tratar-se de um preciosismo sem interesse, mas sempre incomodado com o esforço de cuidar da forma de tratar os outros. Assim, um branco não se sentia em geral ofendido por falar em mouros, ciganos e pretos. Quanto às pessoas referidas dessas formas desrespeitosas, já é uma outra questão.

Muitos dos conceitos usados nestas discussões correm em paralelo entre feministas e anti-racistas.

Quanto ao género, há já alguns anos que quem defende a igualdade de direitos da mulher levanta estes problemas linguísticos, sobretudo entre os falantes de língua inglesa. Entre as mentes mais progressivas, tornou-se hábito, por exemplo, referir uma pessoa indeterminada como she em vez de he, usar o pronome hesh em vez de he ou she, ou mesmo o plural they como singular de género indeterminado. Isto porque entretanto a questão complicou-se com uma discussão inclusiva dos géneros não binários ou fluidos.

A discussão será mais acesa entre nós, porque nas línguas descendentes do latim vulgar, como o português, nem sequer há o género neutro nas palavras. Tudo é completamente binário.

Sendo eu parte do grupo privilegiado, sinto que não me compete opinar de forma paternalista sobre o que é ou não ofensa para os grupos oprimidos. Neste caso do género por defeito, é claro que, à partida, me sinto confortável por esse género padrão ser o meu. Cabe-me sim, como possuidor de uma consciência progressiva, ouvir com atenção e considerar com respeito o que as mulheres têm a dizer sobre o assunto.

Se mudar a gramática for condição necessária para haver mais respeito e mais justiça, pois que se mude a gramática!

17 de janeiro de 2016

But for the oppressed people of the rest of the world they show the middle finger

I made a rather long comment on a guest post in Ophelia Benson's site Butterflies & Wheels, titled "If you say 'I am not Charlie', you are not a liberal". Then, Ophelia published my comment as a guest post of it's own. I'm sharing it with you.

15 de janeiro de 2016

Debate

Um amigo do Facebook, Jorge Silva Paulo, cujas simpatias pendem para o lado das políticas do governo anterior, convidou-me, entre outros, a comentar um poste em que zurzia no governo de António Costa. Na minha resposta entusiasmei-me e escrevi um texto bastante longo. Publico aqui a intervenção inicial desse amigo, com a devida autorização da sua parte, bem como uma resposta sua e uma tresposta minha. Omiti, naturalmente, as intervenções de terceiros que não são meus amigos no Facebook.

1 de dezembro de 2015

Penso, logo sou previsível... 1. Introdução

Tenho andado a ler textos que me colocaram alguns problemas. Li um livro muito interessante sobre o fascismo — The Anatomy of Fascism de Robert O. Paxton (o linque é para descarregar um PDF gratuito) que, entre muita outra informação fundamental, discutia o problema da radicalização. Pessoas pacíficas e pacatas abraçam uma ideologia extremista e paulatinamente começam a praticar atos cada vez mais antissociais e mais criminosos. Como é isso possível?

21 de novembro de 2015

De barriga cheia

Barriga. Assunto complicado. Fala-se muito dela, mas de forma francamente opressiva. Os agentes que querem ganhar dinheiro a vender dietas ou exercícios, ou mesmo curas milagrosas, referem-se à barriga em termos muito depreciativos. Compreende-se, porque é no envergonhar do utente da barriga que reside o seu possível ganha-pão.

Há também os privilegiados com corpos esbeltos, que mencionam com desprezo os seres inferiores que carregam nos seus corpos o estigma. Como a maioria das elites, a pertença ao privilégio raramente resulta de algum mérito. É sorte, os genes certos ou simplesmente juventude.

28 de agosto de 2015

Onde é que eu nasci?

Para todos os efeitos legais e prosaicos, eu estou certo de que nasci há 62 anos, dois meses e 16 dias, ou mais precisamente há 22.693 dias, em Faro, na Rua de São Brás do Alportel, Freguesia de São Pedro. Não é disso que eu tenho dúvidas, naturalmente.

Nas aventuras de ficção científica que incluem viagens no tempo, como a série de filmes Regresso ao Futuro ou o clássico da literatura A Máquina do Tempo, de H.G. Wells, presume-se ingenuamente que os viajantes se deslocam para uma data futura ou passada, mas ficam no mesmo ponto da Terra de onde partiram. Isso é conveniente para o enredo das aventuras, mas ingénuo, porque sabemos que o nosso planeta se desloca pelo espaço a uma velocidade vertiginosa. Mesmo que fosse possível mudar magicamente a variável da quarta dimensão, uma viagem no tempo implicaria sempre uma translação gigantesca no espaço.

13 de agosto de 2015

A Doutrina da Descoberta — um monstro que continua a fazer estragos

Li há pouco que um representante da Nação Onondaga de nativos norte-americanos tinha pedido ao Papa que revogasse uma bula do século XV, do Papa Nicolau V, em favor do rei de Portugal. C’os diabos, que raio de história!

Claro que fui investigar.

Não é certamente agradável para um português educado — ainda no tempo do fascismo — no orgulho nacional baseado na missão civilizadora e evangelizadora do país e no elogio desmedido dos Descobrimentos como feito heróico e altruísta, revisitar essas noções à luz de uma compreensão mais moderna e humanista da História. Mesmo fora do universo ideológico fascista, a noção romântica de que Portugal deu novos mundos ao mundo em vez de assaltar, saquear e escravizar povos por todo o lado ainda acolhe simpatias, escudada na ignorância ou na má fé saudosista do racismo e do colonialismo.

Não quero com isto acusar o Portugal de Quinhentos de ser particularmente vil entre os seus vizinhos, mas não era decerto melhor que eles.

24 de junho de 2015

O carapau manteiga

Antes que a Troika o confisque, divulgo aqui um dos petiscos nacionais. É pouco conhecido, mas os apreciadores juram que é uma iguaria inolvidável.


Foto dos carapaus (banais, suponho, à falta de melhor) do blog Outras Comidas, fundo do jornal Sem Mais de 11/11/2012

 

Trata-se de um carapau que apresenta uma gordura amarelada no lombo, precisamente o que chamam manteiga. Quando assado, a pele destaca-se facilmente do corpo. A Câmara de Setúbal organiza um Festival do Carapau Manteiga em novembro, mas amigos de Setúbal garantem-me que o bicho é mais saboroso nos meses de verão e que em novembro já está meio magricela. Alguns restaurantes na zona de Setúbal servem-no agora, mas costuma ser por pouco tempo, até acabar o fornecimento.

Eu estou aqui a falar de um petisco que nunca provei, mas confio que este ano não vai passar sem isso acontecer, tanto mais que sempre fui mais apreciador de carapaus que de sardinhas.

Várias entidades ligadas à pesca e ao poder local estão a tentar registar e proteger o carapau-manteiga, que só se pesca entre a Lagoa de Albufeira e Medides, supõe-se que devido à abundância de plâncton, junto às pedras do fundo, de que o animal se alimenta.