27 de setembro de 2009

As administradoras da vida

Estava eu a dormir no quarto de hóspedes duns amigos meus quando fui despertado pela rotina matinal de uma mãe a despachar as suas duas filhas para a escola. Lavar, vestir, tomar o pequeno-almoço, lavar os dentinhos, as mochilas, o carro, as horas. Suplicava, ameaçava, tentava vários tons de voz, repetia-se constantemente. As crianças, aparentemente, estavam noutra. Pareciam apostadas em torpedear, através da resistência passiva, o horário apertado da mãe. A voz dela denunciava um stress crescente.

24 de setembro de 2009

Ruínas da memória

Fui ver ruínas históricas e ruínas pessoais.

Quanto às históricas, visitei o castelo de Paderne. Como o dinheiro e a pedra não abundavam, os Mouros construíram o castelo em taipa1, pintando nas paredes uma alvenaria fingida para enganar os inimigos cristãos. Oito séculos mais tarde, se calhar pelas mesmas razões, falta de fundos e pedra, o meu avô materno, no início do século vinte, usou a mesma técnica construtiva para erguer um casebre para a sua numerosa família, antes de se finar de forma muito temporã. Não fingiu alvenaria, antes pintou tudo com singela cal.

21 de setembro de 2009

Globalização no Portugal profundo

Praia do Alfamar, 18/09/09

Praia do Alfamar, 18/09/09

Finalmente estou a trabalhar para o bronze. Já tenho até umas queimaduras, sem as quais não me atreveria a voltar à Grande Lisboa. Já não tenho família em Portimão, onde cresci, pelo que desta vez vim parar a Boliqueime, terra dos meus pais.

O Algarve que eu conheci em garoto já não existe (felizmente!). Saí de cá cedo, sem ter acompanhado as grandes mudanças que o tempo e o turismo operaram. As pessoas falam-me de  uma nova toponímia com nomes de empreendimentos turísticos (Quinta do Lago) ou praias outrora ignoradas que se tornaram famosas por causa de gente famosa (do Alemão, dos Tomates, do Ancão). Não conheço nada disso.

Boliqueime, pelo contrário, está cheia de imagens da minha infância. Houve muita construção, é claro, mas nada da avalanche de betão que soterrou os Olhos de Água, por exemplo. Apesar do mar se ver no horizonte, a distância da costa salvou o sítio. Ando pelas ruas sonolentas esmagadas pelo sol, vejo casas que reconheço, os habitantes parecem tão apostados em ignorar o presente como há quarenta anos, só que agora muito mais velhos.

Boliqueime

Boliqueime

 

Boliqueime é um sítio hostil para mim. Foi onde decidi virar costas às amêndoas e às alfarrobas, romper com a beatice familiar, com a fé dos fatos suados de domingo sob uma abóbada rachada. Trocar tudo isso pelas ideias novas que circulavam na juventude da Casa Inglesa, em Portimão, deixar crescer os cabelos, ouvir Zeca Afonso e os Beatles, conversar com os turistas, finalmente ir para Lisboa.

Boliqueime mudou pouco. A Via do Infante passa perto, foi construído um cemitério gigante, há um grande lar para idosos. Muita gente parece ter enriquecido com terrenos. Poucos parecem ter enriquecido com ideias novas. A poeira branca de caliça continua a querer cobrir tudo. As mulheres já não usam véus pretos nem os homens chapéus de abas. Talvez os usem por dentro.

Vejo de longe as pessoas a sair da missa de domingo. Juntam-se à porta da igreja, mancha escura contra o branco ofuscante das paredes, em grupo compacto, cumprimentando-se e tagarelando. Estarão a pensar no que vão fazer a seguir? Estarão a acostumar os olhos ao sol do meio dia?

À noite, vou tomar um café e um meio whisky a um bar sem nome que já era taberna quando eu era garoto. No balcão central uma adolescente ucraniana repõe as minis, de tempos a tempos, à frente de três zombies alcoólicos que a despem com olhos mortiços. Devem estar ali há horas. Outro zombie, no canto oposto, insurge-se contra os ordenados das estrelas de futebol. Dois homens mais novos gracejam em russo com a empregada. Um deles, alto, louro, de olhos azuis e com um penteado à Elvis, parece cair nas boas graças dela, a julgar pelo seu body talk. No bilhar, uma ex-beldade inglesa exibe um decote demasiado grande para a qualidade da carne exposta. Sabe duas ou três palavras de português, portanto deve morar cá há anos. A amiga dela, talvez portuguesa, não larga os óculos escuros nem de noite. Os dois acompanhantes aparentam ser jovens de mais para elas. Um deles, não percebi bem, parece pertencer ao grupo dos ucranianos.

No meio desta variedade, não devo destoar. Será que pareço de cá ou de fora? Tenho medo de parecer de cá…

O boom do turismo dura há quarenta anos. O bloco de leste desmoronou-se há quase vinte. Portugal, entretanto, também fez umas piruetas. Vidas que o mundo soprou para aqui encontram-se num café ignoto, no lado pasmado do Algarve.

A globalização chegou a Boliqueime.

19 de setembro de 2009

Biostase

Vamos imaginar que é necessário salvar o mundo. Mesmo a sério? Que ferramentas são necessárias? Tenho uma cabeça de designer e, uma vez posto o problema, não pude largá-lo. Levei umas boas seis semanas a escrever este artigo, o que não é muito, se considerarmos a importância do assunto. O resultado pode levar-me a ser apedrejado de vários quadrantes, o que também é normal para quem tente salvar o mundo.

Leiam e critiquem, por favor.

O artigo é um pouco grande para o blog, portanto foi para o meu site:

 


Biostase — artigo em www.carloscabanita.eu


13 de setembro de 2009

Sushi

Sushi

Consegui viver 57 anos sem ter provado sushi. Essa privação finalmente acabou. Foi uma revelação.

Sabores suaves e ricos, em especial os peixes. O estranho arroz japonês. As algas. Uma massa picante estranhamente suave mas poderosa. Os pratos também são uma festa para os olhos. Não vejo a hora de voltar a experimentar.

9 de setembro de 2009

Acabou a festa (comentário)

O post  anterior, Acabou a festa!, incomodou os meus amigos comunistas, como era de esperar. Houve quem me chamasse anticomunista primário (nunca vi ninguém ser chamado anticomunista secundário, é um daqueles chavões), mas a maioria escolheu pegar na descrição que fiz do meu stress psicológico na festa e dos incidentes de distracção e ignorar os considerandos políticos iniciais.

“Esqueceste-te da EP e tiveste problemas com o telemóvel, e que culpa têm os comunistas disso?” Nenhuma, claro. Eu tenho as minhas maluquices, mas não sou doido varrido. Mas o stress precipitou a conclusão de uma reflexão de há anos, a de que, pessoalmente eu, Carlos Cabanita, não tenho nada a fazer lá. Foi o que eu disse:

“Os contratempos e o desconforto são apenas indicadores de uma decisão política, estética e ética que tem de ser tomada. Conheço os sinais. Um tera ou dois de informação mudam de sítio na minha cabeça. Pronto, já está. Não volto cá mais.”

Jerónimo

Falo português, ou quê?

Um amigo escolheu defender a herança histórica do comunismo. Que agora os russos estão pior. Bem os russos, embora sujeitos ao regime autoritário de um ex-KGB, têm mesmo assim muito mais liberdade. E todas as desintoxicações são penosas. Mas se não se tivessem metido com Lenine e Estaline, os russos, que já tinham corrido com o czar e criado um regime parlamentar na Revolução de Fevereiro de 1917, provavelmente seriam hoje uma grande nação europeia e asiática, rica e democrática. Com mais ou menos guerras e pazes, mais ou menos autoritarismo, que parece ser uma sina russa, ninguém o sabe.

E, acrescenta o meu amigo, as conquistas operárias na Europa Ocidental? Quem as teria conseguido senão os comunistas? Com franqueza! Os comunistas não são o movimento operário. Outras bandeiras teriam sido usadas. E foram, nos lugares onde os partidos comunistas eram fracos. As conquistas operárias em Inglaterra, das melhores do mundo, foram obra dos trabalhistas. As da Alemanha Ocidental foram obra do SPD e dos seus fortíssimos sindicatos. Na Escandinávia, o paraíso social-democrata foi obra dos… social-democratas!

Os três grandes partidos comunistas da Europa que tiveram melhor desempenho como partidos operários foram os da França, Itália e Espanha. Hoje quase nada resta deles, mas todos os três se tornaram, depois de condenarem a invasão da Checoslováquia em 1968, desobedientes a Moscovo.

O PCP retardou a sua decadência proibindo toda a discussão e expulsando todos os infiéis. Mas a sua sobrevivência é uma anomalia, tão estranha e improvável no mundo como os maoístas do Sendero Luminoso na Bolívia ou os do Partido Comunista Unificado (Maoísta) do Nepal. O PCP é um fóssil vivo.

Se o PCP tivesse vencido a seguir ao 25 de Abril, em Portugal teria acontecido a última das revoluções comunistas.

Mas o 25 de Abril tinha já outro enquadramento histórico: era uma das primeiras da vaga de revoluções democráticas que abalou o mundo no fim do século XX, em que dezenas de ditaduras ruíram na Europa, na América Latina, na Ásia e até em África. Essas revoluções criaram o mundo aberto em que vivemos hoje, com todas as suas vantagens e problemas.

Muitas dessas revoluções foram anticomunistas. Todas criaram regimes de maior ou menor “democracia burguesa”. E todas eram pró-capitalistas. Azar.

Incapazes de compreender a História, temerosos de discutir o seu próprio passado, esperançados de que a última das suas ditaduras queridas, a de Cuba, afinal não desapareça um destes dias, os comunistas estão à espera que caia o outro sapato.

O “outro sapato” será a implosão do PCP, quando a discussão não puder mais ser contida.

E isso é também uma questão de meses.

 
Não prevejo voltar a escrever sobre marxismo e comunismo. Escrevi este tipo de textos em parte para limpar a minha própria cabeça, em parte devido a discutir frequentemente com amigos comunistas. Quando voltar a escrever sobre política será para discutir como, hoje, se deve e pode lutar por um mundo melhor. Mas para isso tenho primeiro que terminar um artigo sobre questões filosóficas e morais, e esse está-me a dar água pela barba.

6 de setembro de 2009

Acabou a festa!

Há muitos anos que frequento a Festa do Avante!, ano sim, ano não, nunca mais que um dia por sessão. Não concordo com praticamente nada do que lá se diz e aquelas imagens de mobilização de amplas massas comunistas, tudo cheio de foices e martelos e bandeiras vermelhas, trabalhadores de 50 anos de punho no ar e jovens a dançar a Carvalhesa, têm o seu quê de inquietante.

Encarei aquilo como uma espécie de universo paralelo. Um faz-de-conta gigante. 1989 não aconteceu. A União Soviética ainda existe e Brejnev ainda manda nela. O “socialismo” ainda é “real”. Os gulags são ainda negáveis. A maioria dos intelectuais ainda acredita no marxismo. A queda do último dos manos Castro em Cuba não é questão de meses. O marxismo não faliu. O PCP não está isolado no mundo. Ainda é um grande partido de massas e não foi ultrapassado pelo Bloco de Esquerda.

Ano após ano a ilusão vai-se desvanecendo. A Cidade Internacional, outrora povoada de poderosos “partidos irmãos” da Europa de Leste, cheios de ranchos folclóricos e exposições dos sucessos do socialismo nos seus países, está povoada de grupúsculos remanescentes da implosão dos grandes partidos comunistas de Espanha, França, etc. Até o sinistro pavilhão da Coreia do Norte deixou este ano de aparecer. Provavelmente dava demasiadas chatices aos militantes para justificar o convite. Os traficantes de droga e terroristas da FARC também. O que dá mais importância à Venezuela do Chavez, se bem que o entusiasmo não seja demasiado, de parte a parte.

As manifestações políticas foram diminuindo cada vez mais, para não aborrecer as amplas massas consumidoras de cerveja, bifanas, fado e rock.

Festa do Avante

Tenho ido lá mais pelos meus amigos, pela companhia. Ali, como em todas as iniciativas de animação, funciona o princípio da sopa de pedra. A pedra é a desculpa para realizar o evento, a que depois se juntam todos os ingredientes habituais: comes e bebes com fartura, música e convívio. Pão e circo. A pedra, neste caso a glorificação da política do PCP, enfraquece cada vez mais ou é cada vez mais intolerável e os ingredientes habituais tornam-se, como direi, mais banais, comezinhos, enfim, chatos.

2009, o fim da festa

Este ano dispus-me a lá ir mais uma vez, comprei a EP com antecedência e tudo. O que mais me interessava era um recital de ópera na sexta, mas nesse dia saí do trabalho às oito e já não me apeteceu lá ir. Também sei que as condições acústicas lá são totalmente inadequadas para música clássica e o público é ainda mais inadequado, só bom para concertos de rock. Yá, curte-me esta cena, meu, brutal!

Sábado depois do almoço, com a certeza de amigos no recinto, lá vou eu. Consigo estacionar o carro no meio da Amora, a quilómetro e meio da entrada. O melhor é marcar o ponto no GPS, senão nunca mais encontro o carro. O caminho é simples, basta seguir as filas de jovens vestidos de hippies. Chegado à entrada, grande desilusão: a EP tinha ficado nos outros calções! Lá vou à bilheteira e pago 25 euros pelo dia, quando a EP de três dias me tinha custado 19.

Lá dentro o calor é intolerável. Ao fundo, no palco principal, um grupo de rock qualquer faz um basqueiro terrível. Suponho que são os Peste & Sida, mas não compreendo nem reconheço nada do que tocam. Preciso de uma imperial. Vou ao pavilhão de Coimbra. Coimbra, Porto, Faro, Setúbal, não interessa, é tudo igual: são apenas tascas.

Sou interceptado pelo meu amigo Ricardo, que vem acompanhado por uns tipos que conheceu nas férias. O Ricardo é comunista, eu sei. Os outros também, que outra desculpa existe para virem de Côja ao Seixal num dia de calor? Todos felizes por parecerem muitos.

Lá bebemos umas imperiais, à sombra, o que foi realmente um alívio. A minha amiga não atende. Verifico horrorizado que, ao trocar de telemóvel, perdi todos os contactos que não estavam no cartão. Quer dizer que não posso contactar mais ninguém dos que sei que estão aqui.

Entretanto o concerto de rock acabou e o nível sonoro aproxima-se do tolerável. Desço a avenida principal, no meio de multidões de garotas cheias de saúde, suadas e de unhas pintadas nos pés cheios de pó. Moços entusiasmados com as bebedeiras que já apanharam ou vão apanhar. Tipos da minha idade, com as suas barrigas e bonés do Che. Bebés infelizes com o calor.

Começo a ter um forte ataque de agorafobia. Bem, eu não sou realmente agorafóbico, o que me dá é para pensar com muita convicção: “Mas que diabo estou eu aqui a fazer?” Subitamente, mulheres lindas e desejáveis parecem animais estranhos, moços pacatos nos seus habituais gritos alcoólicos tornam-se inquietantes, todo aquele espectáculo adquire um tom grotesco.

Vou até junto do rio, para me acalmar e apanhar um pouco de fresco. Grupos de jovens descansam na relva. O odor a passa é intenso. A minha amiga continua a não atender.

Os contratempos e o desconforto são apenas indicadores de uma decisão política, estética e ética que tem de ser tomada. Conheço os sinais. Um tera ou dois de informação mudam de sítio na minha cabeça.

Pronto, já está. Não volto cá mais.

Subo a avenida, saio, nem aceito o carimbo para poder voltar.

Contando a EP e o bilhete do dia, 44 euros por uma hora de confusão.

Já cá fora, a minha amiga liga-me finalmente.

Tarde de mais.

5 de setembro de 2009

Terroristas

Não gosto de terroristas, e não é de agora. Mesmo quando eu era um marxista radical, nos anos setenta e oitenta do século vinte, nunca aceitei o terrorismo como via política fosse para onde fosse, ao contrário de muitos que tendiam a vê-lo com romantismo. Que desprezo supremo pelo povo é preciso para contemplar a possibilidade de assustá-lo como gado, com actos sortidos de violência, para levá-lo a aceitar os objectivos de uma minoria!

O povo não gosta disso. Sempre que pode reage de forma brutal, ou apoiando medidas brutais, contra os terroristas.

Não se confunda com luta armada contra regimes opressivos, que pode tomar aspectos de guerrilha ou incluir atentados contra alvos militares ou policiais. Pode-se discutir se a luta armada é ou não uma via política eficiente (eu penso que geralmente não é, mas depende das circunstâncias). Os regimes opressores têm vantagem em acusar os seus opositores mais violentos de terrorismo. Mas o terrorismo que me interessa é o que se vira contra civis indefesos, procurando coagir a sociedade pela violência, sobretudo quando acontece em sociedades em que existem meios pacíficos de expressão das ideias políticas.

O terrorista promove ideias políticas de tal modo impopulares que não pode esperar ter a adesão de praticamente ninguém. A violência é o modo como ele espera conseguir influenciar o povo, já que não o consegue pela razão. Mas quem com ferro mata…

Por outro lado, estas coisas não saem baratas. Quase sempre, por detrás de uma organização terrorista, há um serviço secreto — ou dois. Outras coisas são ainda mais difíceis de conseguir que dinheiro: armas, explosivos, documentos falsos, um lugar de refúgio fora do alcance da polícia.

O terrorismo de hoje é totalmente maléfico. Quer se veja do lado operacional, com o mais completo desprezo pela vida humana e uma indiferença genocida pelas suas vítimas intencionais ou “colaterais”, quer do lado político, com a defesa das mais reaccionárias ideias e dos mais desumanos fundamentalismos religiosos, o terrorismo é uma daquelas doenças sociais que desafiam o liberalismo sempre tolerante do moderno democrata.

Os teóricos militares falam de guerra assimétrica. Os terroristas não têm bombardeiros de biliões de dólares e por isso recorrem aos bombistas suicidas. Há verdade nisto. Sempre houve uma componente terrorista na guerra “normal”. Atacar populações com explosivos a cair do céu é, evidentemente, um acto terrorista. Mesmo na nossa era de munições inteligentes guiadas com precisão, há sempre uma munição ou duas que se tornam subitamente “burras” e atingem um mercado cheio de gente. Essas munições não erram, asseguram simplesmente a dimensão terrorista da guerra.

Procurados

O grupo Baader-Meinhof num cartaz da polícia alemã ocidental. Ulrike Meinhof é a primeira, Andreas Baader o segundo, Gudrun Ensslin a terceira, Holger Meins o quarto e Jan-Carl Raspe o quinto. Irmgard Möller é a segunda da terceira fila. [fonte: Wikipedia]

Mas as pessoas que podem dispor de bombardeiros de biliões de dólares encontram-se quase sempre sujeitas a complexos mecanismos políticos, em democracias liberais. Cedo ou tarde podem ser chamados a contas pelos seus cidadãos. Às vezes, efectivamente até são.

Quanto aos outros terroristas, não sujeitos a esses mecanismos de controle e vivendo fora da lei, devem ser simplesmente exterminados, com a mesma falta de piedade que demonstram pelas suas vítimas. Um bom terrorista é um terrorista morto.

Muitos estados modernos que aceitam o valor da vida humana, incluindo Portugal, têm leis que proíbem deportar condenados para países onde exista pena de morte. Os terroristas, pelo contrário, só deviam ser deportados para esses países. O contrário é um desperdício de humanismo.

Mas processar um terrorista através do sistema jurídico-legal de uma democracia é também um desperdício. Melhor é matá-lo na captura, enquanto resiste ou quando, capturado, tenta “fugir”. Um tiro no peito, um tiro na nuca. Nada proíbe uma democracia ocidental de ser também assimétrica…

As zonas cinzentas, onde nada se sabe, existem. Umas são prejudiciais à democracia, outras são essenciais para a sua sobrevivência.

O Outono alemão

Lembro-me do caso do grupo Baader-Meinhof, também chamado RAF, de Rote Armee Fraktion (Fracção do Exército Vermelho), na Alemanha dos anos 70. Apesar do título pomposo, não passavam de um punhado de estudantes radicais que procuravam no terrorismo a saída para o seu isolamento político. Praticaram o fogo posto, os atentados bombistas e os assassínios “exemplares” de patrões e políticos de direita.

Nessa altura estava na moda o terrorismo “de esquerda”, com as Brigadas Vermelhas em Itália, a ETA no País Basco, o IRA na Irlanda e, claro, a Organização de Libertação da Palestina, de Arafat, e a Frente Popular de Libertação da Palestina, de George Habash.

Os seus opositores no outro extremo do espectro político também praticavam a ignóbil arte, muitas vezes discretamente ligados aos estados ou aos serviços secretos, como a loja P2 e o Gládio em Itália, os Unionistas na Irlanda do Norte, os GAL, uma cumplicidade das espionagens portuguesa e espanhola contra a ETA. Os israelitas também usavam quase abertamente o terrorismo contra os seus inimigos.

Os estados comunistas opunham-se oficialmente ao terrorismo, mas apoiavam discretamente os terroristas com passaportes falsos, santuário, armas, explosivos e dinheiro, em particular a antiga RDA.

Mas o grupo Baader-Meinhof era especialmente radical, sedento de sangue e isolado de qualquer cobertura política. Depois de um estágio de instrução militar na Jordânia, com a OLP e a FPLP, voltaram para a Alemanha e iniciaram uma campanha de atentados. Cedo os seus elementos começaram a ser presos, denunciados à polícia pela própria população por cuja libertação diziam lutar. Andreas Baader, Gudrun Ensslin, Ulrike Meinhof, Holger Meins e Jan-Carl Raspe foram encerrados numa prisão de segurança máxima e condenados. Os seus camaradas passaram ao sequestro com exigência da libertação dos presos.

Em vez de conseguirem tal, os presos começaram a morrer. Em Novembro de 1974 Holger Meins morre em greve de fome. Parece que as autoridades prisionais recusaram-se a transferi-lo para os cuidados intensivos. Em Maio de 1975, Ulrike Meinhof aparece morta na sua cela de segurança máxima, onde terá usado toalhas atadas para se enforcar.

Os atentados culminam em Julho de 1977 no rapto de Hans Martin Schleyer, ex-nazi e chefe do patronato alemão. O seu motorista travou bruscamente ao deparar-se com um carrinho de bebé no caminho e foi abalroado pelo carro de escolta. Cinco terroristas cercaram os dois carros e mataram a tiro os polícias e o motorista, mas levaram Schleyer vivo.

Procurados

Cena do filme Der Baader Meinhof Komplex (2008). A actriz Sandra Borgmann faz o papel da terrorista Sieglinda Hoffmann. Cerca de metade dos membros do RAF eram mulheres. [Fonte: Wikipedia]

O governo alemão ocidental recusou-se a negociar, mas procurou ganhar tempo, lançando uma gigantesca operação policial para localizar os raptores e Schleyer. Ao mesmo tempo, isolou completamente os presos, na prisão de Stammheim.

Elementos da FPLP, aliados árabes dos terroristas alemães, desviaram um avião da Lufthansa para a Somália, assassinando o piloto, em Outubro do mesmo ano, com a exigência da libertação dos presos de Stammheim, além da de presos palestinianos na Turquia e da entrega de 15 milhões de dólares.

Depois de conseguirem a permissão do então ditador da Somália, Siad Barre, os alemães lançaram um assalto ao avião com a unidade de polícia de elite GSG9 e mataram os quatro terroristas árabes sem perda de vidas dos reféns, a 18 de Outubro de 1977.

Os presos souberam da notícia nessa mesma noite, via rádio. Antes do sol nascer, Andreas Baader foi encontrado morto com um tiro na nuca. Gudrun Ensslin apareceu enforcada. Jan-Carl Raspe morreu no dia seguinte, em resultado de um tiro de caçadeira na cabeça. Irmgard Möller, apesar de ferida com quatro facadas no peito, sobreviveu e acusou o estado alemão ocidental de execução extrajudicial.

Hans Martin Schleyer já não servia para moeda de troca, apenas para a vingança: foi encontrado morto no dia seguinte, em França.

O inquérito oficial concluiu que as mortes dos presos se deveram a um suicídio colectivo.

Assim acabou o que foi chamado o Outono Alemão (Deutsche Herbst).

Eventos semelhantes, noutros pontos da Europa, como o sequestro e assassínio de Aldo Moro, ditaram o declínio do terrorismo de esquerda. A queda da União Soviética e dos satélites, com o seu apoio logístico, ajudou também muito, uns anos mais tarde.

Mas eu admiro os alemães. Não procuraram legalizar o que não podia ser legalizado, pondo em perigo a sua preciosa constituição. A mensagem é simples, brutal e subtil ao mesmo tempo: o que aconteceu tinha de acontecer, mas não pode ser legal. Portanto, nunca aconteceu.

Trinta anos mais tarde, os americanos podiam ter aprendido com eles…

Os terroristas portugueses

Sobre os terroristas portugueses, podia escrever outro artigo, mas não me apetece. Como a maior parte do que se copia cá, eram uma versão rasca.

Só um exemplo: num atentado à Herdade de São Mansos, as Forças Populares 25 de Abril mataram um bebé de quatro meses. Depois, num comunicado à população, pediram desculpa.

Como é que se pede desculpa por matar um bebé de quatro meses?

Depois de uma justiça vergonhosa, em que os “arrependidos” foram assassinados ou condenados e os criminosos se safaram impunes, os brandos costumes retomaram o seu curso e toda a gente esqueceu. Isso tem as suas vantagens, é claro. Preserva-se a paz social.

Mas paga-se um preço terrível, um preço moral.