21 de julho de 2013

Manual do Amigo I

Kate Donavan costumava blogar hospedada no blogue de Ashley Miller nos Freethought Blogs, mas recentemente ganhou a sua própria tribuna nesse portal, Gruntled and Hinged. A sua escrita incide principalmente sobre questões de doença mental, dos direitos e problemas das pessoas afligidas com elas e problemas éticos relacionados com estas questões. Sabe do que fala, sendo ela própria uma resistente de um caso grave de anorexia, em recuperação. Este Manual do Amigo que resolvi traduzir parece-me bastante útil a quem quer que seja que queira ajudar alguém com problemas mentais. Até com pequenas diferenças, serve também para quem quer ajudar alguém simplesmente doente.

Tal como no original dela, o Manual fica dividido em quatro posts:

Manual do Amigo II

Manual do Amigo III

Manual do Amigo IV

(Os links do texto são os mesmos do original e referem-se a artigos em inglês)

Manual do Amigo I

Sou amiga de algumas pessoas maravilhosas e brilhantes com doenças mentais. Também tive as minhas próprias experiências com falhanço cerebral persistente, e tive alguns amigos realmente fantásticos que apareceram, me abraçaram e me aturaram a conversa durante as piores noites, e também sabem que quando eu digo que não me sinto bem e que preciso de espaço... preciso mesmo de espaço já.


Também tenho conhecidos que não conseguem fazer isto. Para eles, quando eu digo ”Estou incapaz de interagir agora, por favor volta mais tarde”, o que na verdade sai da minha boca é “Ó pá, tenho uma dor de cabeça terrível”. Tenho a certeza que essas pessoas, sempre bem intencionadas – que incluem a Pessoa Não Sabes Que Isso Te Faz Mal e a Pessoa Às Vezes Eu Também Me Esqueço De Comer – ficariam chocadas, chocadíssimas se soubessem que às vezes dizem coisas sem qualquer tacto. No fim de contas, é assim que isto funciona – não nos damos conta.

Não queres ser essa pessoa?

Tens um amigo com uma doença mental?

(O mais certo é teres).

Queres que o teu amigo se sinta uma parte valiosa da sociedade que te interessa? Se a tua resposta a isto é não, o artista Ologies tem isto para ti.

Com esta ideia em mente, juntei algumas noções básicas para tentares ser o melhor ser humano possível para alguém que te disse que tem a Desordem X.

Ressalva Muito Importante: Pode ser que o teu amigo não tenha interesse em discutir nada para além da primeira revelação. Assegura-te que continuas a verificar que ele se sente confortável a responder a perguntas... e sublinha que ele te pode mandar parar a qualquer altura ou recusar-se a responder a questões pessoais com que não se sinta confortável. Quando eu sinto que não posso sair de conversas ou adiá-las depois de terem começado, faço o possível por nem sequer deixar que comecem. Os lugares seguros não são seguros se não tiverem saída.

1. As palavras são o mais importante

Então o teu amigo/a achou as palavras para te dizer como se sente? Presta atenção. As palavras são a melhor maneira que conhecemos para que os outros nos deixem entrar nas suas cabeças, e as palavras que usam para descrever as suas experiências são as ferramentas mais importantes que te dão. Ela sente-se frágil? Não é o mesmo que deprimida. Ele sente-se deprimido? Não se chama a isso sentir-se triste. Sinto-me mais compreendida, valorizada e ouvida quando oiço alguém trabalhar dentro dos limites de como eu
descrevi os meus sentimentos.

“Disseste que te sentias sem iniciativa. Ainda te sentes assim? Sentias-te melhor se eu te levasse a jantar ou ao cinema? Ou isso ia fazer-te sentir na obrigação de fingir que te divertias?”

2. Não. Suponhas. Coisas.

Eu sei que um dos instintos humanos mais básicos é relacionarmo-nos uns com os outros através de experiência partilhada. Não tentes.

Pois, tu tinhas esse amigo com desordem bipolar há tempos lá no tal sítio? História gira, mano. Garanto-te que eu não sou esse amigo. Neste exemplo particular, há duas expressões da desordem bipolar. Não sabias? Não faz mal. Não tens que saber. Tudo o que tens que saber é que eu sou Eu, e que Eu sou diferente dessa Outra Pessoa Com a Desordem X.

3. Tu não tens que ser o seu psicólogo

Tu conheces o teu amigo/a tão bem, e se conseguisses que ele pensasse em... Não.

Pára com isso.

Eu percebo, tu tens um quadro de referência especial, e tal, mas pára. Já. Faz desse sentimento uma abóbora e esmaga-o.

4. Não, por favor não tentes mesmo ser um psicólogo

Se és meu amigo, nós temos um toma lá-dá cá. Às vezes eu oiço-te falar daquela vez em que tentaste explicar uma Coisa Importante à tua mãe / namorado / namorada / professor e eles não perceberam, e às vezes tu ouves-me refilar sobre o meu dia stressante no trabalho. Ficamos quites nisto, e se não ficássemos eu seria uma má amiga e seria inteiramente justo que tu me chamasses a atenção, ou simplesmente decidisses encontrar o tipo certo de amigos.

Não é assim que a terapia trabalha. Terapistas, conselheiros e psicólogos são pagos uma nota preta para fazer coisas como irritar-se quando os seus clientes não fazem o trabalho de casa e fazer perguntas realmente pessoais e, em resultado disso, os seus clientes esperam que eles lhes dêem atenção, que os seus problemas sejam o foco, e que, se não parecem estar a obter o tipo certo de
ajuda, podem despedir o psicólogo. As amizades são mais complexas e, em resultado disso, não podemos despedir os amigos e não temos de pagar-lhes.

5. Falo mesmo a sério. Tu não és um psicólogo.

Verdade, se há coisa que vais levar de todas estas palavras, que seja isto. É doloroso, aborrecido e provavelmente mesmo irritante. Se não és qualificado, eu prefiro ficar com o meu amigo.

O que podes fazer é oferecer-te para encontrar locais de tratamento. Levar-me às minhas consultas se eu não conseguir lá ir, ou dar-me grandes, mesmo grandes abraços quando eu saio delas e continuo a sentir-me mal. Há muitos psicólogos por aí. A posse de um diploma poeirento em psicologia ou de um compêndio de Introdução à Psicologia de caloiro não nega a tua Identidade de Amigo. Mesmo que sejas um psicólogo, nunca deves tentar tratar os teus amigos. Portanto, a sério. Não faças isso.



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