19 de abril de 2018

Riqueza traz felicidade? Até certo ponto...

A questão de saber se a riqueza traz felicidade ou não tem ocupado os filósofos e os moralistas há milénios. Vários ditos irónicos circulam, sendo o mais conhecido o de que o dinheiro não traz a felicidade mas ajuda muito. Os que prestam mais atenção ao desenvolvimento das qualidades morais tendem a desprezar o dinheiro ou até, como fazem os budistas, negar a noção de desejo. A felicidade seria o Nirvana, ou a morte do desejo.

A ciência tem o hábito de cortar nós górdios, substituindo palavreado por análise matemática e, neste caso, entrou na questão armada de um grande machado epistémico. Bom, a felicidade é subjetiva, mas a felicidade ou infelicidade de grandes números pode ser tratada como um dado objetivo. Porque é que não perguntamos às pessoas?

E pronto, foram perguntar às pessoas do mundo inteiro se eram felizes e quanto ganhavam. O tratamento estatístico de uma amostra de 1,7 milhões de inquiridos, representativa da população mundial, deu esta resposta surpreendente na sua precisão:

O dinheiro traz a felicidade, para pessoas de todo o mundo (com variações não muito grandes), quando conseguem um vencimento entre três e meio a cinco mil euros mensais. A partir daí, o aumento de fortuna resulta numa diminuição de felicidade.

Estes são números para pessoas individuais. Para famílias, os proveitos têm que ser multiplicados pela raíz quadrada do número de pessoas no núcleo familiar. Um casal sem filhos, duas pessoas, precisará de um rendimento 1,41 (raiz quadrada de dois) vezes maior. Uma família de quatro precisará de um rendimento conjunto de duas vezes o da pessoa singela (a raiz quadrada de 4 é 2).

Estas conclusões encontram-se no trabalho de Andrew Jebb, Louis Tay, Ed Diener, and Shigehiro Oishi, “Happiness, Income Satiation and Turning Points around the World,” Nature: Human Behaviour 2.1 (January 2018): pp. 33-38. Diz o abstract:

Sabe-se que os proveitos estão associados à felicidade, mas persistem debates sobre a natureza exata dessa relação. A felicidade aumenta indefinidamente com a riqueza, ou há um ponto em que rendas mais altas deixam de levar a um bem-estar maior? Examinámos essa questão usando dados da Gallup World Poll, uma amostra representativa de mais de 1,7 milhões de indivíduos em todo o mundo. Controlando fatores demográficos, usámos modelos de regressão spline para identificar estatisticamente pontos de "saciedade de rendimentos". Globalmente, descobrimos que a saciação ocorre em 5500€ mensais para a avaliação da vida e entre 3500 a 4300€ mensais para o bem-estar emocional. No entanto, há uma variação substancial nas regiões do mundo, com a saciedade ocorrendo mais tarde nas regiões mais ricas. Também descobrimos que, em certas partes do mundo, as rendas além da saciedade estão associadas a avaliações de vida mais baixas. Essas descobertas sobre renda e felicidade têm significado prático e teórico nos níveis individual, institucional e nacional. Eles mostram um grau de adaptação da felicidade e que o dinheiro influencia a felicidade por meio da satisfação das necessidades e também do aumento de desejos materiais.

As minhas credenciais não me deixam ir além do abstract, pelo que me socorri duma discussão deste mesmo trabalho por parte de Richard Carrier, no seu blogue: Money Buys Happiness? Not After You Hit Six Figures. O gráfico mostra como a curva da avaliação da vida vai subindo até certo ponto, começando a descer a partir daí.

Não se perguntou aos entrevistados se estavam felizes ou não, já que isso daria resultados pouco fiáveis. Em vez disso, inquiriu-se sobre duas variáveis:

Avaliação de vida: os participantes foram convidados a “imaginar uma escada com degraus rotulados de 0 a 10, onde 0 representa a pior vida possível e 10 é a melhor vida possível” e a indicar em qual degrau da sua vida se sentem pessoalmente no momento presente. Note-se que é uma escala de 11 pontos (por causa da inclusão de um possível 0).

Bem-estar afetivo: perguntou-se aos participantes “se experimentaram um estado emocional durante boa parte do dia de ontem”. Para a medida do afeto positivo (emoções positivas), os estados emocionais medidos foram felicidade, prazer e riso. Para a medida dos afetos negativos (emoções negativas), os estados emocionais medidos foram stress, preocupação e tristeza.

Diz Carrier: "Os maiores pontos de satisfação na avaliação da vida foram de 5700€ (Europa Ocidental e Escandinávia) a 7200€ (Austrália e Nova Zelândia), e não mais altos. Essa condição existia basicamente em nações ricas (por exemplo, na América do Norte, era de 6000€), onde sobreviver – na verdade, obter muitas coisas – é mais caro. Mas uma faixa de 5500€ a 7200€ em todo o mundo não é uma diferença significativa. Praticamente em todos os lugares, você maximiza sua satisfação com a vida assim que atinge os cinco mil euros. Depois disso, já não ganha nada. Havia um grupo diferente de regiões onde o ponto de saciedade para avaliação de vida era muito menor, variando de 2000€ (América Latina e Caribe) a 4000€ (Sudeste Asiático), com regiões nesse grupo incluindo a Europa Oriental e a África. No entanto, essas regiões também experimentam uma satisfação máxima de vida mais baixa. Por outras palavras, eles não conseguem alcançar os níveis de felicidade que as pessoas noutras regiões conseguem (e mais pessoas não conseguem atingir o máximo disponível localmente); consequentemente, aqueles que podem chegar lá, maximizam o que podem alcançar, mais cedo. Essas regiões também tendem a ter menores custos de vida, o que pode ser um factor".

Observações

O produto mundial bruto per capita PPC (paridade de poder de compra) anda à volta de 900€ mensais. Isso quer dizer que, dividido o dinheiro irmãmente, dava para todos nos governarmos. Não dava era para sermos felizes.

Mas, como todos sabemos, a riqueza mundial é repartida de forma radicalmente desigual. A maioria nem pode pensar em ser feliz, vive antes bem próxima do desespero, enquanto uma ínfima minoria abarbata uma quantidade incrível de recursos para – e isso é o mais cómico – se tornar cada vez mais infeliz, já que ultrapassou em muito o ponto em que a riqueza teria utilidade para o seu bem-estar pessoal.

E tornar toda a gente feliz, será possível?

Assim de repente, cinco mil euros por mês para todos não está ao alcance da economia mundial. Mas a produtividade irá continuar a subir, se não dermos cabo do planeta e da humanidade. Nalguns anos chegaremos lá. Mas terá que ser uma vida muito diferente. Não há quantidades ilimitadas de energia para esbanjar e desequilibrar o ambiente, nem é viável continuar com a destruição do nosso habitat desta forma irresponsável. Imagino que a felicidade se possa atingir com menos recurso a quinquilharia e mais soluções humanas.

O estudo nota que os latino-americanos, apesar de terem problemas tremendos, conseguem ser felizes com muito menos riqueza do que os europeus e norte-americanos. Atribuem isso a questões culturais, como a capacidade do povo se estruturar em unidades solidárias mais eficientes, como as famílias de toda a espécie e as vizinhanças.

Então, devemos aprender com eles.

Nota: Os proveitos nos textos que consultei estavam expressos em dólares anuais, como é habitual nestes casos. Mas como esse tipo de quantidade não nos diz muito, converti essas quantias em ordenados mensais em euros (14 por ano), o que faz muito mais sentido para a forma como vivemos. As equivalências podem ser vistas na tabela abaixo e as quantias originais podem ser consultadas no artigo de Richard Carrier.

Mensal € Anual € Mensal $ Anual $
289 4 039 357 5 000
577 8 078 714 10 000
866 12 118 1 071 15 000
1 154 16 157 1 429 20 000
1 443 20 196 1 786 25 000
1 731 24 235 2 143 30 000
2 020 28 275 2 500 35 000
2 308 32 314 2 857 40 000
2 597 36 353 3 214 45 000
2 885 40 392 3 571 50 000
3 174 44 432 3 929 55 000
3 462 48 471 4 286 60 000
3 751 52 510 4 643 65 000
4 039 56 549 5 000 70 000
4 328 60 589 5 357 75 000
4 616 64 628 5 714 80 000
4 905 68 667 6 071 85 000
5 193 72 706 6 429 90 000
5 482 76 746 6 786 95 000
5 770 80 785 7 143 100 000
6 059 84 824 7 500 105 000
6 347 88 863 7 857 110 000
6 636 92 903 8 214 115 000
6 924 96 942 8 571 120 000
7 213 100 981 8 929 125 000
7 501 105 020 9 286 130 000
7 790 109 060 9 643 135 000
8 078 113 099 10 000 140 000
8 367 117 138 10 357 145 000
8 656 121 177 10 714 150 000

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